Os produtores do grogue em Santo Antão manifestam-se “preocupados” com a chegada, “nos últimos tempos”, à ilha de “quantidade anormal” do açúcar e de outros produtos, que acreditam serão utilizados no fabrico da aguardente, a partir de Janeiro.

A pouco menos de dois meses do início da safra de cana sacarina e da reabertura dos alambiques, os produtores do grogue, sobretudo no Porto Novo, têm denunciado a aquisição, por parte de “supostos” agricultores quantidade invulgar do açúcar refinando que, alegadamente, será utilizado na produção da aguardente.

Alguns produtores, abordados pela Inforpress, dizem ter “informações privilegiadas” de que pessoas têm estado a armazenar grandes quantidades de açúcar que, a partir de Janeiro próximo, poderá ser utilizado no fabrico do grogue, como aconteceu em 2017.


Edivaldo Neves, produtor do grogue em Ribeira da Cruz, localidade conhecida pelo seu “bom grogue”, diz recear que, por falta de fiscalização, alegados agricultores, à semelhança do que se verificou em 2017, voltem a utilizar o açúcar e outros produtos nocivos à saúde para a produção da aguardente.

A própria Inspecção-Geral das Actividades Económicas (IGAE), durante o processo de selagem de alambiques que decorreu entre durante o mês de Agosto, encontrou, das análises realizadas, “elevada concentração de chumbo, metanol, mas também algumas substâncias cancerígenas, que contribuíram para a “má qualidade” da aguardente em Cabo Verde.

Edivaldo Neves diz-se, por isso, preocupado com essa situação e exortou a IGAE para, desde já, se preparar para o reforço da fiscalização com a reabertura das unidades de produção, a partir de Janeiro.

Em Santo Antão, as autoridades sanitárias têm estado a alertar para o uso dessas substâncias no fabrico da aguardente, que tem criado problemas de saúde graves aos consumidores, como câncer de esófago e outros.

Os produtores do grogue santantonenses se queixaram, durante a safra de 2017 (Janeiro a Julho) da “deficiente” fiscalização, que contribuiu para uso do açúcar e outras substâncias que comprometeram a qualidade do grogue, mas também a saúde das pessoas.


Os produtores dizem que a sua preocupação é que se cumpra a lei de produção e comercialização do grogue, em vigor desde 2015, respeitando as regras e boas práticas de fabrico que garantam qualidade dos produtos e saúde dos consumidores.

Emirjo Alves, na Ribeira da Cruz, Graciano Évora, no Tarrafal de Monte Trigo, e José Pires Ferreira, no Paul, são outros produtores que têm vindo a mostrar a sua inquietação em relação ao uso de substancias proibidas no processo de produção do grogue, comprometendo os “ganhos conseguidos em 2016”, em termos de qualidade, adiantam.

Esses produtores acreditam que a perda da qualidade do grogue de Santo Antão, verificada em 2017 deveu-se, essencialmente, à falta de fiscalização.

“Deixou-se de fazer a fiscalização da produção do grogue em Santo Antão e muita gente, sabendo dessa situação, voltou, de forma descarada, a produzir o grogue de açúcar”, alertou Emídio Alves.

Esses produtores responsabilizam, igualmente, as câmaras municipais pela situação, por emitirem licenças “sem quaisquer critérios”, violando a lei e promovendo o ressurgimento de fabricantes da aguardente de açúcar.

Aliás, lembram que, durante a selagem dos alambiques em Agosto, a própria IGAE constatou que 70% dos 380 alambiques existentes em Cabo Verde, com maior ênfase nas ilhas de Santo Antão e Santiago, operam ilegalmente e sem licenciamento.

Além disso, há várias unidades de fabrico em Santo Antão que vêm operando fora do período estipulado por lei.

A nova lei do grogue, que os produtores consideram “excelente”, exige que os alambiques sejam selados entre Agosto e Dezembro, período em que regista-se a escassez da cana de açúcar em condições suficientes para garantir a produção do grogue genuíno.

O Governo, conforme garantias dadas pelo primeiro-ministro, em Agosto, durante uma visita a Santo Antão, procederá, em 2018, “uma forte aposta” na fiscalização de todos os sectores da vida económica do país.

Ulisses Correia e Silva, em todas as visitas efectuadas, este ano, a Santo Antão, foi confrontado pelos produtores que reclamaram da ausência de fiscalização da produção do grogue nesta ilha, tendo prometido, para o próximo ano, o reforço da fiscalização do Estado, tanto em relação à aguardente, como de outros produtos alimentares.

“A lei é para se cumprir. Se existe alguma situação de incumprimento da lei ou se há falta de aplicação da legislação sobre a matéria, vamos ter que alterar esse quadro”, prometeu, na altura, o chefe do Governo.

Para 2018, os produtores prometem “boa safra” e desejam que seja o “ano de efectiva fiscalização” para a salvaguarda da qualidade da aguardente tradicional, produzida em Sano Antão há mais de 300 anos, e com “um peso enorme” na economia santantonense.

A produção do grogue em Santo Antão ronda, actualmente, os dois milhões de litros por ano, numa ilha onde a quase totalidade da área irrigada (mais de um milhar de hectares) é coberta por cana-de-açúcar.

A necessidade de se apostar num laboratório de controle da qualidade do grogue constitui outra preocupação dos produtores e da própria Confraria do Grogue de Santo Antão (Congrogue).

Inforpress

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