Li com alguma perplexidade o comunicado dos Bispos da CEAST sobre a presença em Cabinda do senhor D.Filipe Teixeira Cupertino. E pelos vistos o assunto já está a criar alguma polémica, a meu ver, desnecessária. Tenho cá comigo as minhas dúvidas sobre a oportunidade desse comunicado e dos efeitos vantajosos que possa trazer.

Por deputado Raul Tati - Quem é o falso bispo?

Como teólogo tenho alguma autoridade para opinar sobre essa matéria e faço-o completamente despido de preconceitos. Para começar, o Filipe Cupertino foi meu contemporâneo no Seminário Maior de Luanda, embora mais novo do que eu.

Como tinha familia nos EUA, sendo de origem cabo-verdiana (e sabe-se que a vocação para a diáspora é o forte desse povo), o jovem Cupertino emigrou para os EUA nos anos 80. Lá continuou a sua formação sacerdotal no seminário. Uma vez veio a Luanda de férias e contou-me das suas experiências em seminários americanos. Depois do seu regresso, nunca mais estivemos juntos até que as novas tecnologias de informação nos proporcionaram o reencontro.

Foi dali que soube que tinha sido ordenado presbítero e mais tarde consagrado Bispo duma comunidade católica independente (Catholic Churc of America). Ficou à frente da Diocese de S. Francisco de Assis onde tem estado a realizar um trabalho pastoral empenhado em prol da justiça social e dos imigrantes. Ora, com a crise da igreja em Cabinda, entendeu estender a mão aos três presbíteros que D. Filomeno achou por bem afastar (P. Alexandre Pambo, P. Jorge C. Congo e eu próprio) para aderirem à sua comunidade. O P. Congo aceitou o convite e foi acolhido no seio da mesma. Quanto a mim, por razões bem ponderadas, não embarquei.

E o P. Pambo, idem. Quanto ao problema levantado pela CEAST, para além de ser deselegante (fere a ética) é improcedente do ponto de vista da jurisprudência canónica. O direito eclesiástico considera um bispo validamente ordenado desde que se mantenha o princípio basilar da sucessão apostólica. Assim sendo, falso bispo é todo aquele que tenha usurpado esse título fora da sucessão apostólica. Ora, o comunicado da CEAST não fundamenta se D. Cupertino foi ou não validamente ordenado dentro da sucessão apostólica.

É preciso que se saiba que por força do surgimento de várias comunidades católicas independentes no mundo, sobretudo na América e na Europa na última centúria, a sucessão apostólica deixou de ser monopólio da igreja católica romana. A maior parte dos criadores dessas novas comunidades foram ordenados bispos dentro da Igreja católica romana e por sua vez ordenaram outros fora dela. Por conseguinte, D. Filipe Cupertino, nesta perspectiva não é menos ´´episcopus´´ que os nossos bispos da CEAST caso esteja dentro da sucessão apostólica.

O problema da apostasia é outro assunto que mereceria uma análise tranquila. Mas tanto quanto percebi, D. Cupertino visita Cabinda em nome da sua comunidade e não em nome da igreja católica romana. Ele não se fez passar por um bispo romano como os prelados da CEAST. Creio que D. Cupertino não tem satisfações a dar aos bispos da CEAST. Para além disso, se nos EUA ele exerce normalmente o seu ministério pastoral ha dezassete anos e nunca foi considerado ´´falso bispo´´ porquê há-se sê-lo em Angola?

É aqui onde encontramos as sementes das guerras religiosas registadas na historia da humanidade. Tudo começa com essas atitudes de intolerância e de ciúmes. Compreendo que D. Filomeno V. Dias, actual administrador apostólico de Cabinda, esteja preocupado com a emergência dessa nova comunidade católica em Cabinda que está de algum modo a ofuscar essa diocese que anda moribunda e apática, situação agravada com a demora na nomeação do seu sucessor (há mais de três anos sem bispo diocesano). Para não ser mais longo, apenas dizer que a legitimidade do bispo Cupertino advém-lhe da sua comunidade e não da CEAST.

A CEAST não tem autoridade para impedir ou permitir nada em relação a D.Cupertino. Que cada um ceife em ceara própria e que o nome de JAHVEH seja glorificado. Amén!

BOA SEMANA SANTA!”.

Por: Angola24horas


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